Protegido.

Se despediu do pastor e saiu da igreja. Guardou a bíblia dentro do casaco, segurou firme a muleta e saiu caminhando até o ponto de ônibus. Quinze paradas até seu bairro, e mais umas dez quadras caminhando. Domingo demorava a chegar em casa, pois domingo há menos ônibus.
Desceu no ponto da rua e seguiu. Chovia fino. Nenhuma alma na rua. Se assustou um pouco por andar sozinho na escuridão por tanto tempo. Entre muitos minutos um carro solitário passava com os faróis acesos. Bem devagar. Velocidade de domingo. Não sabia ao certo se a presença do carro aliviava a tensão ou não.
Pensou no que o pastor dissera. A vida não lhe ia muito bem, mas pelo que lhe fora falado intuiu que o melhor era tomar posse de uma vitória já garantida. Como? Bastava lembrar de como se sentira no culto. Cheio de ânimo por uma batalha já ganha.
Então resolveu que o sentimento de medo era profano, respirou fundo e invocou a proteção de Deus e todos os santos. Anjos incluso.
Tirou a bíblia do casaco e a segurou como se fosse uma arma. Defesa maior quanto qualquer mal. Ou um escudo a lhe proteger dos faróis passantes.
Disse a si mesmo: “Estou protegido”.
Até parara de andar com a muleta, que agora carregava sobre o outro braço. O que não carregava a bíblia.
Arrematou mais um mantra: “Estou protegido!”.
Nessa hora miríades de anjos celestes desceram e pavimentaram a rua de dourado, seguraram os carros e seus faróis, enquanto outros santos de espadas flamejantes mataram todo o mal que havia entre o exato trecho onde estava até sua casa.
Caminhou confiante sem temer nem ladrão, nem frio. Tinha anjões parrudos de guarda-costas e anjinhos ninjas como batedores. Santarrões coordenavam do quartel general despachando através de quatro cavalos trombeteiros.
Chegou em casa sem nenhum arranhão.
Coisa de se estar protegido, pensou.
Ao pegar a chave do bolso, deixou escorregar entre os dedos o chaveiro, que caiu no único espaço entre a tábua solta da escada e o sopé da porta, desaparecendo na escuridão para debaixo da casa.
Ao se dar conta do ocorrido, com muita irritação exclamou:
“Diabos!”.

 

 

fragmento do livro “Matéria Escura” de Guilherme Zawa, publicado pela Amazon KDP.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s