Nagata.

Nagata é um advogado baixo, corpulento e com um pescoço demasiado curto. Seu corpanzil munido de uma gravata provoca uma impressão de quase ausência do pescoço. Deixando o ornamento quase sem função. Como um maneta usando luvas. A reação da visão da ineficiência da gravata de Nagata faz questionar o porquê de hoje ainda se usar em países quentes como o Brasil.
Embora a fisiologia brasiliero-nipônica de Nagata atrite com o status quo do indumentário atual, essa percepção é prontamente esquecida quando Nagata começa a falar. Ele possui uma espontaneidade lastreada na sua autoaceitação. Por ser baixo e gordo, nunca fez sucesso entre as meninas do colégio, mas sempre se destacou entre amigos por ser inteligente e engraçado. A ojeriza que causava nas meninas não perdurou até a idade adulta. Nagata é um advogado com relativo sucesso na cidade em que vive. Apesar de não ter tido dinheiro para começar seu próprio escritório de advocacia, acabou por tornar-se sócio do escritório que começara como estagiário ainda na faculdade. Sua inteligência social sempre o fez ser bom lidando com clientes, principalmente os mais difíceis. Isso fez o interesse dos sócios sêniors surgir pelo japonês engraçado que fazia, em poucas rodadas de conversa, o tom de uma reunião pesada se tornar mais afável.
Nagata tem um salário de classe média. O número de prestações de seu apartamento ainda consta com três dígitos e dirige um carro popular. Entretanto se levarmos em conta o seu prestígio entre os colegas de profissão, é possível perceber uma incompatibilidade com seu salário. Isso é menos culpa de Nagata do que da economia do país.
Por isso, quando caminha pela rua seu olhos levam um brilho cândido de menino travesso. Sua autoestima se desenvolveu apesar da aparência e é reforçada pela sua posição profissional.
Essa confiança nos olhos fez mais de uma mulher se interessar por ele.
Você pode achar Nagata caminhando na rua durante a semana de terno e gravata, seu olhar lembra o de alguém que está pensando em uma história engraçada.

 

fragmento do livro “Matéria Escura” de Guilherme Zawa, publicado pela Amazon KDP.

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