Sodré na santíssima.

Passava pela pontas dos dedos os recibos do estacionamento. Era preciso fazer esse controle durante o turno para que no final do dia não houvesse recibos faltantes. O desconto vinha do seu salário. Costumava fazer essa averiguação várias vezes ao dia quando começou, agora, quinze anos depois, uma ou outra vez, só para manter o hábito, pois raramente cometia erros, depois da vasta experiência que adquirira em estacionar carros ali.

Este movimento o fazia com as mãos semi escondidas atrás do balcão. Do seu lado direito uma fotocópia de uma foto de Jim Morrison e do outro uma de Janis Joplin, figurando como gênero para a porta dos banheiros. Sodré no meio com uma camiseta preta do Led Zeppelin. Poderia se dizer uma imagem composta, quase que arquitetada. Uma possível santíssima trindade do rock’n’roll.
Sodré sabia muito sobre gerenciar um estacionamento, mas o que não sabia é sobre a passagem do tempo e como ficara tanto tempo naquele lugar.
Enquanto guardava os recibos em uma gaveta escutou um dos motoristas dizer: “há mais de dez anos estaciono aqui. Conheço esse moço. Pode confiar”. Essa frase atingiu os ouvidos de Sodré e o paralisou. A mão que guardava recibos subitamente parou, como que repousada dentro da gaveta. Olhou para o cliente e o reconheceu. Realmente, ele o notava de longa data. De soslaio olhou para os carros estacionados ao redor. E seu coração apertou.
Caminhou até o centro do estacionamento.
olhou para fora. Conhecia todos os donos das lojas ao redor. Olhou para dentro. Viu posters de bandas de rock que pendurara na parede, uma vitrola antiga e uma pilha de vinis raros, incluindo Led Zeppelin ao vivo e o segundo álbum original do Pink Floyd, que toca quando não há movimento ou quando se sente bem.
Lembrou do sonho de ser dono de um bar, e de outro sobre viajar o mundo trabalhando em hostels. Não realizara nenhum, mas não sentia arrependimento. Sentiu o chão mais sólido do que de costume. Todo aquele espaço estava conectado com seu ser, através de sua mente. Com a memória era capaz de reproduzir cada centímetro do estacionamento. Os átomos e prótons ao seu redor fluíam co-criando seus pensamentos. Ele era parte daquilo. Aquilo era parte dele. Tinha transformado aquele espaço em sua casa.
Largou os recebidos e foi colocar um vinil do Led Zeppelin na vitrola.

 

 

fragmento do livro “Matéria Escura” de Guilherme Zawa, publicado pela Amazon KDP.

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