Setúbal.

Levou a barba à passeio até o emoldurado do jornal na parede externa da banca de revista da praça onde um dia se assoitara os escravos. Nem tanto tempo atrás assim, pensava.

Na mochila pesava um grosso volume com carinho garimpado em um sebo. Era um livro de passear. Nunca conseguira ler todo o calhamaço. Iniciara várias vezes, mas não fora ao fim. Não por que a obra era ruim. Pelo contrário. Mas por que assambarcar imensa densidade de vida emanada pelo nobel de literatura lhe causava um lapso. Uma espécie de lapso congelante. No fundo não se sentia apto para tal empreitada. Segurar aquele volume extenso e sem capa. Raridade de edição. Não conseguira. Mas não sabia disso.

Aquele dia levou o livro e a barba até a mesa do café da praça. Chovia, então o dono do café colocava uma mesa sobre o teto da banca. Setúbal sentou de frente para a parede, dando a impressão de uma criança que está de castigo com a carteira de frente para a parede ou a ideia de alguém que não quer conversar com ninguém, ou ainda a imagem de que Setúbal tinha um café marcado com a parede.

A parede era cônjuge rejeitada, no entanto. Setúbal resolvera reiniciar a empreitada de tentar ler o livro.

Nesse dia fugiu da chuva. Se concentrava para não sofrer mais do lapso congelante de medo do livro. Por vezes esquecera o livro na mochila. Levou o livro em viagem, mas esqueceu de ler. Colocara na cabeceira, mas fora tarde para a cama e não tivera ânimo para ler antes de dormir.

Naquele dia dissera para si que não sairia dali sem antes ler pelo menos uma centena de páginas.

Separou dinheiro para pagar o café. O guarda-chuva para o tempo cinza. O casaco para o frio da capital. O telefone celular para algo que não sabia. Um pequeno dicionário para não engasgar em nenhuma palavra.

Abriu o livro na página até onde tinha lido. Leu a primeira frase que dizia “A planície de Weymar não é mais a mesma”. Imediatamente pensou que a cidade que o rodeava não era mais a mesma. Imaginava as pessoas que passaram e caminharam onde agora sentava. Imaginou os escravos sofrendo em meio a praça há mais de 200 anos atrás. Se deu conta da brevidade da passagem do tempo. Dos poucos anos que vivera e de quanto eles significam ao lado da história da humanidade: Nada. Ficou perplexo. Olhou para a parede da banca de revista até o café fechar naquele dia.

 

fragmento do livro “Matéria Escura” de Guilherme Zawa, publicado pela Amazon KDP.

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