O dia que parou Genaro.

Um arrepio passou por todo o corpo, quase como se o coração tivesse parado de bater. Estava prestes para atravessar a rua vindo da calçada mais movimentada da cidade, mas o pensamento o fez parar com a ponta dos pés sobre o meio fio.

A manhã de Genaro tinha sido como tantas outras. Acordou as 6h. Colocou a camisa branca, a gravata preta, o terno, o chapéu e uma caneta no bolso, uma não, três para garantir, e saiu tomar café no centro da cidade. Café com leite e pão com manteiga. Um senhor respeitável a tomar café da manhã. Pelo menos era a imagem que Genaro pensava passar, pois na verdade quem o vê repara na gravata que não alcança a cintura tentando dar a volta na imensa barriga proeminente, resultado de não mudar a maneira de como dá o nó da gravata aprendido quando ainda era adolescente e magro. As três canetas idênticas e perfiladas no bolso da camisa aprecem querer perguntar -“afinal o que um senhor que passa o dia tomando café no centro da cidade tem tanto a escrever?” E por último, o terno e o chapéu que sempre figuram em Genaro, independente do clima. Independente do calor moderado que fazia.
Aquele dia foi diferente, entretanto. Enquanto caminhava pensava nos filhos que criara, no trabalho que tivera, nos amigos que perdera e, subitamente, seu passo começou a ficar mais pesado, era como se a gravidade tivesse sido aumentada em várias vezes e a força gravitacional tivesse um coeficiente diferente somente para ele andando ali naquela rua. Essa sensação durou uns três ou quatro passos, mas Genaro também tinha perdido a noção da passagem do tempo. Como que dentro de uma bolha, parecia que o mundo a volta passava mais lento e ele era mero observador. Como um cientista a olhar uma colônia de formigas em um aquário de vidro, Genaro pôde colocar toda a humanidade em perspectiva. A humanidade toda dentro de um aquário.
Parou de caminhar e começou a observar a rua movimentada. Tudo parecia mais colorido. Como se os prédio e pessoas fossem uma pintura feita em tinta fluorescente. Nesse momento também se tornousentiu mais leve. Assim que a sensação de gravidade aumentada passou, algo parecia ter ido embora junto com ela. Era com se uma película invisível tivesse dito descolada de seu corpo. Uma película transparente mas muito pesada. Esse acontecimento lhe dava agora uma agradável leveza no corpo e uma estranha vontade latente na bochecha esquerda de esboçar um sorriso. Um sorriso que não chega à superfície do rosto, mas que relaxa os músculos da face, deixando-os engatilhados para se armarem com muito pouco ou quase nenhum motivo aparente.
Respirou fundo e deu meia volta com seus pensamentos.
Daquele dia em diante continuou a usar gravatas, mas passou a ser extremamente feliz.

 

fragmento do livro “Matéria Escura” de Guilherme Zawa, publicado pela Amazon KDP.

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